Por Poeta Xandu

A curadoria do Festival Panorama 2013 apresentou um leque de obras contestadoras, perturbando o senso comum sobre Arte. Questionou-se o espaço, o tempo, o modo de se produzir uma obra e o próprio lugar do artista na obra. Atento a esse pequeno “vandalismo”, para usar um termo da moda, fui assistir ao CRACKz, em sua apresentação do dia 1º de novembro, no Teatro João Caetano. Era o mais novo espetáculo do corpo de baile dirigido por Bruno Beltrão, o Grupo de Rua de Niterói-GRN.

Por afinidade… E por gostar de escrever, Poeta Xandu assim conhecido, criei um projeto de comunicação comunitária, de nome Zine Zero Zero, um blog dedicado às diversas rodas de Breaking do Grande Rio. Ao longo de quatro anos busquei contar um pouco de suas histórias, trazê-las à superfície, bem como, partilhei dos dramas e sonhos dessa juventude. Pela perspectiva das lutas sociais, a profissionalização nas danças urbanas sempre foi um norte de discussão, e por este caminho, há um ano me dedico a pensar sobre as contribuições das danças do Hip Hop para o Mundo da Dança, entendido como Arte. Agora junto-me a proposta do Laboratório de Crítica do Festival Panorama 2013 para lançar esse olhar para o trabalho de Bruno Beltrão.

Antes do espetáculo, participei de um encontro, exposto em vídeo na internet(1): era uma batalha de Breaking, dança nervosa, cheia de desafios, onde a cópia de movimentos gera até brigas.(2) Lá estavam alguns dos CRACKz, num momento em que se divertem, motivados pela dança de sua preferência. É o mote usado pelo diretor, ter seu elenco formado por essa antropologia dos bailes da periferia, das Danças de Rua(3) e do Hip-Hop: seja o Breaking, o Hip Hop Freestyle, o Krumpping, Popping, Locking, Housing etc..

Sobre o título CRACKz, o encarte(4) apresenta a palavra crack, ou quebra, como um modo dos piratas da internet usarem programas de informática sem autorização. Fala-se também em remix; a imaginação do artista nutrida por diferentes fontes na composição de uma obra. Na internet, através dos vídeos, o elenco buscou algo que lhes tocasse; uma escolha, um desejo de imitar dado movimento. Aparentemente, o encarte sugeriu dualidades: criação e cópia; autoridade e inconformidade, original e reprodução, propriedade e pirataria. Resta-me olhar para o palco.

O pano se abre e entram em cena os quatorze dançarinos do elenco. Estão vestidos em bermudas, camisetas e tênis, como era esperado para essa obra; dividida em quatro partes, como pude entendê-la. Logo nesse início vejo movimentos vigorosos, corpos que se espalham em energia, e detalhes revelados pela boa iluminação do tablado. Além da base sólida nas street dance, vi algum espaço para jogos de pernas típicos da capoeira. Um começo de tirar o fôlego, iluminado pelas linguagens das Danças do Hip Hop como são feitas no Brasil, nossos remix.

É também um começo marcado pela sonoridade crua, sem ritmo ou melodia, plena de ruídos estridentes, da música concreta. De certo, causou algum incômodo para quem espera ver clichês do Hip Hop, em sons vibrantes e rotineiros shows de video-clips… Seria muito óbvio para o corpo de baile da GRN, que em grande medida não adota uma base rítmica. A música concreta tensiona os nervos, guarda mistérios, oferecendo um clima emocional à peça.

Aquela luz que me revelou aqueles corpos mostrou em detalhes seus movimentos, não mais voltaria a vê-la. Após alguns flashes de luz forte, passa a vigorar um foco difuso, ameno, porém preciso, meticuloso, medido. Por excelência técnica, iluminaram os corpos apenas o suficiente para dar-lhes algum destaque. Não mais a música concreta, agora é uma peça de eletrônica, de dub step, também soturna, dark. Medo é uma palavra possível, apreensão é outra.

Certo. Entrou uma base rítmica. Porém, o som assinado pelo grupo The Vladslav Delay Quartet mostra-se como uma marca draculesca, de efeito thriller. Uma opção conceitual alinhada com o clima ambiente, de pouca luminosidade. E mesmo aquele foco, que me ajudou a discernir detalhes, enfim, perde-se. A peça revela-se numa gradação em direção as sombras. Até o fim do espetáculo, a luz se apresentará como um enigma espacial para Beltrão, um desafio a sua destreza ao “pintar” o palco com aqueles corpos.

Em seus desenhos coreográficos, Beltrão pareceu responder de acordo com o nível de luz. Temos um início bem iluminado, uma segunda parte já de ambiente mais sombrio, de foco dirigido, e uma terceira parte marcada pela penumbra. Com esse limite dado pela escuridão possível, uma quarta parte se dá através de um sinal de luz vermelha, que não afeta a luminosidade geral, mas aprofunda o clima de tensão já vivido até ali. Eis os desafios instituídos pelo jogo das sombras.

Se o som conferia um estado emocional à peça, não se pode dizer que existissem elementos teatrais(5), mesmo se as danças flutuassem livres com a sonoridade. Ou seja, a peça manteve-se distante de reproduzir qualquer situação cotidiana, afora a dança, até o momento sinalizado pela luz vermelha. Este perturba a forma conceitual, como vinha sendo  mostrada até ali. O detalhe exige que me prenda aos arranjos coreográficos indicados pelos tipos de luzes.

Na abertura da peça, plena de luz, exibe-se o conjunto em toda sua potência, o que se reduziu aos duos e solos do segundo ato, destacados por aquele foco difuso já mencionado. Nos duos se sobressaem técnicas como krumpping – que valoriza a força dos braços e pernas jogados ao ar – ; ou popping, cujos movimentos de deslocamento de ombros e peitoral passam a impressão de sinuosidade. Por mostrar grande domínio de movimentos, me vi obrigado a cumprimentar pessoalmente: Bárbara Lima brilhou!(6)

Esses movimentos das street dance, belos por óbvio, não exatamente conferem maior valor à obra. O maravilhamento se dá pela forma como se realizam tais protagonismos, aqueles duos e solos vistos através da silhueta. Com maior escuridão, na terceira parte, mais dançarinos entram em cena e assim recupera-se a harmonia com a luz; a dança visível no palco. Esses corpos em maior número passam a cumprir trajetórias mais explosivas, entre agregações e desagregações, criando desenhos sensíveis.

As cenas vertiginosas, realizadas em grande velocidade, exigiram caminhos de escape e revezamentos. O revezamento entre protagonismo e dissipação permitiu ao elenco poder respirar, justamente uma chave para se preencher a amplidão total da boca de cena, uma marca da GRN. Uma tarefa que exige bastante energia do corpo de baile e engenhosidade de sua direção.

Tomando por medida seu trabalho anterior, o espetáculo H3, notei algumas mudanças formais. A fim de preencher o espaço total, aquela peça dava destaque às técnicas de corrida pra trás, com muita intensidade – de efeito meteórico.(7) Já na peça atual, tal “efeito” foi substituído pelos escapes de cena, deslocamentos em giros entorno do eixo, igualmente intensos, capazes de atravessar o palco. Foram de grande beleza.

Por fim, a luz vermelha ameaçadora marca uma virada para a violência. Com o fundo do palco ocupado, em extremo de perspectiva, exploram-se agregações em triplas e um combate teatral generalizado. Cenas de brigas e tiroteios, mímicas de situações de conflito, alternam-se com um símbolo de “bandeira”, dado com o perfilamento de alguns dançarinos, apoiados em um dos pés, a balançar o corpo, pernas e braços abertos. Essas “bandeiras”, muito belas e intrigantes, me pareceram significativas, um contraponto expressivo para aquela encenação.

Nesse momento me pergunto sobre os vídeos pesquisados… Nesse 2013, vemos um clima de passeatas quase diárias, onde manifestantes reclamam suas bandeiras de liberdade. Entre os manifestos, as manobras da polícia e a figura combativa dos black-blocks, essa rotina de confrontos é transmitida ao vivo, pela mídia NINJA na internet.(8) Como poeta e pessoa conectada com os vários modos de se reclamar a liberdade, me senti tentado a pensar nos sentidos levados ao palco. Se os gestos tirados da internet implicam de algum modo a peça(9); se a figura de piratas, a produzir CRACKz propriamente; que peso essas dimensões simbólicas ganham no palco? Como a escuridão e a violência poderiam falar de luta por liberdade na atualidade?

Então temos a urbanidade como lócus sensível, plena de vida e de Arte, onde se constrói o atual “repertório de gestos da humanidade”, expandido pelas novas tecnologias de relacionamento. O quanto este novo “outro”, anônimo e desterritorializado, nos toca a ponto de querermos ou copiá-lo? E a questão autoral? Tão relevante, se pensamos apenas no Breaking, mas tão diluída pelo fazer artístico atual… Numa sociedade vertical, cada vez mais afetada pelas fronteiras entre ter e não ter(10), como encarar a horizontalidade oferecida pelo acesso à internet? Como nos filmes, gostamos de coisas que jamais viveremos na realidade. Por Argan, a Arte Moderna, em suas muitas formas, é tocada pelas sensações autênticas, quando o gesto do artista se expressa verdadeiro e universal.(11) Como não reclamar a liberdade?

Claro, pensei nas favelas e periferias, onde se sustenta uma violência cotidiana, semelhante aos confrontos de guerrilhas. Nesses espaços, também acontecem as Danças Urbanas, em paralelo às danças tradicionais populares. Entre o funk de James Brown, as batidas do Hip Hop e os movimentos de capoeira, temos uma releitura local para a dança Breaking. Melhor, o chamado Funk Carioca também figura como um remix popular, algo local, já separado das danças do Hip Hop.(12) Aqueles corpos no palco carregam esse termo sensível, um corpo de baile construído pela proximidade com os bailes periféricos, espaços de liberdade e sublimação da violência. Não seria um pouco como vejo as danças do Hip Hop? Luminosas na TV, nos vídeo-clips, mas se caminho para dentro desse mundo…

Vejo em CRACKz esse caminhar para as sombras, para onde sou guiado ao som tenebroso de um dub step, e venho me perguntando sobre ideais de liberdade… Não deixo de pensar nas contradições da globalização. Tipificadas como áreas opacas, como definiu Milton Santos(13), são as regiões mais pobres dos centros urbanos, onde ocorrem conflitos diretos, o domínio do entorno, onde a repressão do Estado é enfrentada no calor da revolta latente, da convulsão. Diferente das áreas nobres, chamadas luminosas pelo fácil acesso a ciência e tecnologia, as periferias produzem inovações com o pouco que possuem: seja na vida social ou na criatividade pulsante, que um exemplo é a cultura Hip Hop, uma cultura do remix. Seria coincidência falar em claro e escuro?

Enfim, friamente poderia ter dito sobre uma desconstrução operada diante das questões autorais do ambiente Hip Hop. Creio que não se resume dessa forma, sem elevar o pensamento. Pessoalmente gostei de CRACKz, dos gestos apresentados, independente se são locais ou universais, originais ou copiados. As pessoas com quem estive no dia, e depois, questionando através de um site na internet, todas gostaram, maravilharam-se! Como sublimar tantas violências e libertar a Arte de suas armadilhas atuais? Bruno Beltrão parece ter lançado algumas perguntas importantes para nossos dias.(14)

 

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Notas:

(1) Trecho da batalha Guerra dos B.Boys do Gueto 2013, realizada em 19 de outubro, no bairro de Jacarepaguá/RJ. Alguns dos B.Boys em competição fazem parte do elenco CRACKz [GRN], sendo um modo exemplar para entender essa linguagem. Ver: <http://www.youtube.com/watch?v=81rbejQ8zWE&>.

(2) No calor das batalhas de Breaking, a cópia de um movimento é denunciada com o bater dos antebraços, para ser identificado pelo júri e influenciar nos resultados. Em visita a Casa do Hip Hop/Diadema, conheci o B.Boy Danzinho, que me apresentou uma reivindicação de autoria para um movimento que se globalizou sob outra assinatura. São questões autorais da dança Breaking. Vide Blog ZineZeroZero: http://zinezerozero.blogspot.com.br/2011/09/bboy-danzinho-detroit-break-crew.html.

(3) A dança Breaking ainda carece de acordos em sua filiação a uma macro-categoria. São aceitos os nomes Danças Urbanas, Street Dance, Danças do Hip Hop e Danças de Rua, numa flutuação confusa e polêmica. A discussão foi levantada durante a sessão sobre “Danças Urbanas”, do Seminário de Metodologia do Ensino de Educação Física/2011, realizado em 05/08 pelo Grupo de Pesquisas em Educação Física Escolar da FEUSP. V. ANDRADE, Beatriz Campos. Danças Urbanas: uma história a ser narrada. 2011. Disponível em: <http://www.gpef.fe.usp.br/teses/agenda_2011_09.pdf>

(4) Ver: <http://panoramafestival.com/2013/portfolio-items/crackz-bruno-beltrao-grupo-de-rua-de-niteroi/>.

(5) Sim, estou exagerando quando passo a insinuação de que os “elementos teatrais” sejam negativos; ou se o que chamo de “alinhamento conceitual” seja possível de acontecer em separado daqueles. Também, quando me refiro aos “duos e solos” etc., não expresso que as cenas tenham se reduzido a esses termos. Uso alguns destaques para generalizar, empregar meus próprios tons sobre a peça.

(6) Ver: <http://www.youtube.com/watch?v=5AhFTVcF7cA>.

(7) Segue um trecho do espetáculo H3, da GRN, gravado em 2009, no qual aparecem alguns dançarinos mostrando a técnica de corrida para trás: <http://www.youtube.com/watch?v=COoql8jpj2A>.

(8) Por mídia NINJA compreende-se um projeto privado de comunicação, de nome “Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação”, conhecido por transmitir ao vivo a totalidade de cada passeata nas ruas. Apesar de ter colado como apelido genérico, é um termo distante de mídia independente, quando jornalistas e populares se dedicam a fazer o mesmo. Cf. <https://www.facebook.com/midiaNINJA>.

(9) No mesmo vídeo da nota 6, Bárbara Lima fala do processo criativo, pelo qual foram pesquisados vídeos sobre dança profissional e mímica, distante de outras fontes possíveis, como passeatas, tiroteios ou mesmo bailes populares.

(10) ARGAN, Giulio Carlo. As Fontes da Arte Moderna. Tradução: Rodrigo Naves. In: Revista Novos Estudo – CEBRAP, nº 18, setembro 87. pp. 49-56.

(11) O antropólogo Hermano Vianna aprofunda a questão sobre as misturas culturais na sociedade de consumo, sendo referência em bailes de Funk e Hip Hop no Rio de Janeiro. Cf. VIANNA, Hermano. O mundo funk carioca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1987.

(12) Sobre o assunto, ver: <http://www.onu.org.br/agenda-global-pos-2015-deve-focar-em-igualdade-dizem-especialistas-da-onu/>.

(13) SANTOS, Milton. Técnica, Espaço, Tempo – Globalização e Meio-Técnico-Científico Informacional. 3ª Edição, São Paulo, Editora Hucitec, 1997. Pg. 19.

(14) Antecipando-me ao Laboratório de Crítica, expus algumas questões para os colegas da Universidade das Quebradas, um projeto de extensão do PACC/UFRJ, pessoas a quem sou grato pela interação e ideias lançadas sobre o CRACKz. Obrigado! Rastos dessa conversa podem ser conferidos nesse link: <http://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br/poeta-xandu-comenta-a-saida-cultural-crackz-e-quer-trocar/>.

Sobre o autor:

Poeta Xandu é codinome usado por Alexandre Wilson de Oliveira Santos, 40 anos, sociólogo (UERJ/2004) interessado nos temas cultura, arte e trabalho, atuante no ambiente das ONGs do Rio de Janeiro. Por herança das lutas estudantis universitárias aproximou-se da cultura Hip Hop, especificamente, dos grupos ligados à dança Breaking. Sob a sigla ZineZeroZero, atua desde 2008 em um projeto de comunicação independente, um blog orgânico com a dança Breaking, abrangendo todo o Grande Rio. Desde as histórias de rua, de bailes, batalhas e festas, até a fase atual, de lida com os arquivos gestuais da Dança Contemporânea – poetizar a dança Breaking é a marca do Poeta Xandu. E-mail: gdbdbdg@gmail.com.

 

Foto: CLAP