Por Helena Vieira

 

Clarice Lispector em sua crônica “O vestido branco”, de 1967, faz uma pergunta: “Grossura é pureza? Uma coisa sei: amor, por mais violento, é.” Lembrei-me de Clarice ao ver Cesena na tarde do dia 27 de Outubro. A proximidade em que eu estava posicionada no imenso teatro da Cidade das Artes fez-me assistir ao espetáculo de forma intimista, desde a primeira cena, quando um rapaz nu, apenas de tênis, entra correndo e se posiciona exatamente de frente para a minha poltrona, centralizado e na beira do imenso palco.

O ato era em si uma espécie de violência, que em mim entrou como grande beleza, para o casal da fileira da frente; algo insuportável, a mesma cena que me atraia os impelia para fora do teatro. Víamos, nós os privilegiados das duas primeiras fileiras, todo o percurso que sua voz fazia por dentro de seu corpo nu antes de sair pela boca em um berro lancinante que ecoava pelo imenso teatro, e isso em uma escuridão quase total.

A partir desse momento o que se seguiu foram comprovações de que tudo que ali estava eram escolhas que chegavam até a mim por uma via de “emoção racional”. Explico: é aquela emoção que não faz cisão entre o que vê e o que sente enquanto vê, é quando o espetáculo nos enlaça. As luzes apagadas – apenas uma geral na boca de cena – do início do espetáculo devem ter contribuído para essa fusão. O palco sem coxia levava-me constantemente para pequenos detalhes; quando um bailarino amarrava o tênis, colocava o cabelo para trás ou falava com um companheiro. Por tudo ser um convite para ver o acontecimento em si, um pequeno detalhe, assistido talvez apenas pelos privilegiados das primeiras fileiras, chocou-me pela imensa beleza: na parte superior do teatro a porta de um camarim se abre e a luz que estava ali dentro invade o breu do palco, a cena durou apenas alguns segundos, o suficiente para eu ver na cena uma  pintura, sem pensar muito, algo que me lembrava Edward Hopper, tamanho o encontro entre a força violenta e a doçura da contemplação, algo de extrema  delicadeza.

 

Sobre a autora:

Helena Vieira é bailarina, doutora em Artes Cênicas pela UNIRIO. Professora de dança para crianças. Trabalha há dez anos com performance solo em torno das questões de gênero e revolta.

Foto: Herman Sorgeloos