Marcados e não marcados

Bruno Reis*

 

Um corpo branco é como uma folha em branco?

 

Lí recentemente alguém que dizia que, ao nos depararmos diante de uma tela branca, não nos encontramos diante de um vazio, mas de um excesso. É como se desenhar ou pintar fosse justamente retirar um sem número de clichês que já estariam presentes na tela supostamente em branco.

 

Nenhum corpo, eu arriscaria dizer, está imune a essas imagens que se acumulam, visivelmente ou não. Nem o corpo da folha de papel, nem o nosso.

 

Nos estudos da performance fala-se de corpos marcados e não marcados. Lembro imediatamente, por exemplo, das discussões sobre uma literatura feminina, enquanto a todo o resto não se designa como literatura masculina, mas simplesmente literatura. Alguns corpos são submetidos à marca da diferença, enquanto outros podem circular sem marcas, naturalizando e invisibilizando justamente a marca que impõem em outros corpos.

 

É um corpo branco que escreve aqui em frente a uma tela em branco de computador. Esse corpo foi assistir no Teatro Sérgio Porto ao espetáculo Alla Prima, do português Tiago Cadete, parte da programação parceira do Festival Panorama. Tenho que retirar alguns clichês da tela antes de começar a escrever. Aliás, o ato de escrever é justamente sobre isso.

 

Alla prima é o nome de uma técnica de pintura em que se modela formas e figuras sem um esboço anterior, aplicando camada sobre camada de tinta ainda fresca. Essa técnica exige rapidez, porque a pintura deve ser concluída antes que as primeiras camadas de tinta sequem. À semelhança da técnica italiana, Cadete também produz um trabalho de acumulação de camadas que vão se sobrepondo, substituindo-se umas às outras. No espetáculo, o performer mimetiza imagens que são descritas inicialmente por áudio, todas elas versando sobre colocações de corpos no espaço. Parte a parte, Cadete vai posicionando seu corpo nu e, logo ao chegar ao que seria uma imagem final, começa a se submeter a outro processo de mimese, a partir da descrição de uma nova imagem.

 

Em um momento posterior, as descrições orais cessam e passamos a visualizar imagens de pinturas que retratam o Brasil colônia. Nesse momento é possível reconhecer pinturas que haviam sido descritas anteriormente, e, apesar disso, a imagem produzida pelo corpo do performer não é a mesma. Por mais cuidadoso que o performer seja, há um descompasso entre a versão que mimetiza a descrição oral e a que mimetiza a imagem.

 

Surge um certo intervalo entre a palavra e a imagem. Ao contrário da tradição do modelo vivo que serve de fonte para pintura, Cadete faz o processo inverso, da pintura para o modelo vivo. O que o trabalho faz emergir é o salto, o abismo que há entre essas diferentes formas de representação, palavra, corpo, pintura, imagem fotográfica. Mas há outros abismos em cena.

 

O espetáculo produz uma espécie de levantamento de um certo imaginário colonial, formado especialmente por pinturas desse período, apesar de acrescentar, perto do final do espetáculo, fotografias contemporâneas.

 

As imagens vão se sobrepondo e se acumulando, de certa maneira. A acumulação, porém, não acontece no corpo do performer, mas no nosso corpo. As inúmeras sequências de poses não alteram o estado corporal de Cadete. O que é possível inscrever em um corpo branco? Não me parece, nem de longe, que o artista trabalhe com uma dramaturgia da inscrição. As imagens se acumulam no nosso corpo, não no dele. Um acúmulo de memória reavivado e passado rapidamente, como num slideshow de mímicas, contraposto com um slideshow de referências originais. Há certamente um certo senso de humor nessa aula de História da Arte Brasileira com um professor português e pelado. E o humor, mais do que uma indelicadeza, pode ter o efeito contrário, o que me parece ser o caso: de maneira sutil, desestabilizar o que está instituído, fazer emergir sentidos novos e paradoxais no que já está fixado. Sem dúvida um corpo nu que brinca de dar aula de História faz toda a História que conta se remexer.

 

O decalque, a cópia daquele corpo retirado de seu contexto, faz surgir um estranhamento em relação àquelas imagens e consequentemente a um certo imaginário do Brasil. É curiosa, porém, a escolha do performer português de retratar sempre os corpos do “outro”. Nas pinturas em que há portugueses, como no Desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro em 1500, de Oscar Pereira da Silva (1865–1939), Cadete mimetiza os índios, não os portugueses. E isso se repete em inúmeras outras imagens, em que o artista escolhe índios ou negros escravizados em detrimento dos personagens brancos.

 

Em entrevistas à imprensa e no material de divulgação do trabalho, o artista afirma que pretende fazer uma reflexão sobre o imaginário do corpo brasileiro. Na tela citada, porém, assim como em muitas outras que aparecem no espetáculo, os índios são tão brasileiros quanto os portugueses retratados nessas pinturas. E com tão brasileiros quero dizer nem um pouco brasileiros, ecoando o pensamento de Viveiros de Castro[i]. Brasileiros apenas enquanto supressão de uma identidade anterior a partir de uma nacionalidade colonial fundada por portugueses. E, obviamente, no processo do que viria a ser – e está sempre vindo a ser – o Brasil, portugueses e outros povos brancos se tornariam também brasileiros, ao estabelecer morada e ter seus descendentes aqui, explorando as riquezas locais e utilizando a mão de obra escravizada africana, além de reproduzir o genocídio sem fim dos povos indígenas. Somos, afinal, um povo não simplesmente subjugado, mas formado também pelos subjugadores. Talvez o trabalho acabe reforçando, mesmo que não seja seu desejo, uma certa invisibilidade da marca do corpo branco sobre os outros corpos.

 

Apesar disso, Alla Prima evidencia esse imaginário da subjugação, mesmo que não escolha explicitar como e por quem foi construído. Há uma tentativa de produzir uma desconstrução desse imaginário, mas uma desconstrução não é possível sem alguma genealogia da imagem, ou seja, sem o desvelamento de seus modos de produção.

 

Nas imagens encenadas, corpos negros e indígenas estão sempre apanhando, caindo, observando, servindo, sempre em relação de passividade com o corpo branco. Além disso, especificamente no caso indígena, quando são retratados na floresta, seu “habitat natural”, isso é feito com um certo olhar botânico, catalográfico, em telas de pouquíssima narratividade, que se atentam basicamente em registrar sua suposta exoticidade, suas pinturas corporais, cocares, arcos, cestos e outros artefatos.

 

Quase no final do espetáculo começam a surgir, misturadas às imagens históricas, fotografias contemporâneas que retratam desde artistas brasileiros da performance a celebridades da internet como Mc Carol e Inês Brasil. Essa parte me parece pouco articulada às demais imagens, visto que no caso das duas artistas são imagens produzidas por elas mesmas ou com a sua autorização. É outro tipo de imagem, apesar de haver, obviamente, ecos de um passado escravagista na maneira como nos relacionamos com seus corpos negros. Na verdade, não reparei nisso até o momento da discussão com os colegas do LabCrítica. Ponto cego meu ou do espetáculo? Creio que de ambos.

 

Existiu, a partir do século XX, uma longa tradição de crítica da representação no sentido dela funcionar como uma espécie de substituição, como se, ao representar alguma coisa ou alguém, este se fizesse presente no lugar de outro. Em nenhum momento, me parece, Cadete pretende fazer essa operação.

 

Ainda de maneira provisória, talvez seja importante pensar uma possível diferença entre mimese, pensada aqui como imitação de algo, e a representação, onde algo suprime a presença de outra coisa.  Talvez, em sua meticulosa tentativa de mimetizar a imagem do outro, mas despido de qualquer adereço, o trabalho de Cadete evidencie justamente uma impossibilidade.

 

Seu corpo está nu; ao mimetizar essas imagens ele faz uma operação de decalque no sentido de perda de detalhe. Ao justapor a imagem original e o decalque, não penso que se pretenda uma neutralização, mas uma evidenciação da diferença: aquelas imagens não se inscrevem no corpo do performer. Não poderiam. Trata-se de outro corpo, europeu, com outra História e outro imaginário produzido a seu respeito.

 

O mimetismo, no lugar da representação, faz emergir um vazio que dificilmente a representação possibilita. Um vazio como espaço sem significado, espaço tido como neutro, que é o corpo branco. Esse vazio obviamente só é vazio para que possa circular significado, ou uma certa ordem de significações. Um corpo liso, sem marcas, num universo de corpos marcados. Me pergunto como é possível evidenciar esse paradoxo? Ou, ainda, como um processo de relação com o outro não passa, necessariamente, por uma crise da sua própria identidade? Como abrir essas fissuras?

 

* Bruno Reis é estudante de Teoria da Dança na UFRJ e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela UFF. Pesquisa dramaturgia em dança e transita entre as artes da cena, o cinema e outros quintais.

 

Texto produzido no LabCrítica no Festival Panorama 2016.

 

 

[i] Cf. VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os Involuntários da Pátria.  Aula pública durante o ato Abril Indígena, Cinelândia, RJ, 20/04/2016. Disponível em: <<https://acasadevidro.com/2016/04/24/os-involuntarios-da-patria-por-eduardo-viveiros-de-castro-aula-publica-durante-o-ato-abril-indigena-cinelandia-rj-20042016/>>. Acesso em: 20 dez. 2016.

 

Fotos: Alla Prima / Tiago Cadete © Divulgação