XVI Panorama de Dança Contemporânea
dos curadores :: from the curators
No Brasil, um projeto artístico fazer 16 anos é um feito e tanto. Aqui a vida pública, feita de mandatos e não de projetos, reinventa regras, muda valores e redefine prioridades de quatro em quatro anos. Analisamos o projeto a cada passo que damos, repensando o desenho do Panorama e de suas ramificações. A cada edição, buscamos novas maneiras de tornar o festival – e a dança – parte integrante da sociedade em que vivemos. E, sobretudo, avaliamos nossa coerência com as posições políticas que sempre fizeram do Panorama um espaço de desconforto, de pergunta, de dúvida e de constante desconfiança diante das formas estabelecidas de o indivíduo se relacionar com a arte, a cidade e o meio social.
No Brasil, fazer 16 anos é, na verdade, um feito para qualquer um. Os jovens entre 15 e 20 anos representam a maioria das vítimas dos 50 mil homicídios dolosos registrados anualmente no país e, freqüentemente, são seus autores. Com uma das maiores taxas de mortes violentas do mundo, nosso país apresenta regiões com mais de cem homicídios por cem mil jovens entre 15 e 24 anos, caso dos estados do Rio de Janeiro, Pernambuco e Espírito Santo. Este é o cenário em que mais uma vez propomos reunir artistas do Brasil e do mundo que se dedicam a pensar as artes do corpo. Nunca temático, jamais uníssono, o Panorama se arrisca sempre ao tecer uma teia de obras cênicas cujo fio condutor é o corpo pensado em suas implicações políticas, estéticas e sociais.
Desde que assumimos a curadoria e a direção do festival, decidimos que o Panorama não podia ser uma vitrine de artistas, um mercado de espetáculos. Queríamos manter viva a idéia da bailarina e coreógrafa Lia Rodrigues de que o Panorama é, principalmente, um espaço de encontros. De conhecer e de se dar a conhecer. Nesse sentido, oferecemos três grandes presentes nesta festa de 16 anos.
O primeiro é a aproximação com nossos vizinhos. Desde nossa entrada na direção do festival, desenhamos uma estratégia de longo prazo para essa integração. E agora temos a visita de 30 profissionais vindos de diversos países do continente para participar do Encontro da Rede Sul-Americana de Dança e assistir aos espetáculos de nossos artistas. Esperamos que este seja um passo importante para uma maior interação dessa arte na América Latina.
O segundo é nos darmos conta de que, somados os projetos em que o Panorama investiu nos últimos anos, chegamos à marca de 18 obras realizadas em projetos colaborativos. Na programação deste ano, o público vai ver três. Saídos do projeto Encontros 2005/2006 – em parceria com nosso mais ativo e recorrente parceiro, o projeto Alkantara, de Lisboa – Karima meets Lisboa meets Miguel meets Cairo e Dueto são dois resultados diversos que dizem das possibilidades e dos riscos da colaboração com o outro. Movimento #2, da carioca Andrea Maciel, é um dos nove gerados pelo coLABoratorio, projeto inédito com 20 artistas da Europa e da América do sul, realizado pelo Panorama em 2006 e 2007. Os outros gerados em intercâmbios viajam sem parar pelo mundo, provando que abrir-se para conhecer o outro é a chave para o crescimento artístico.
O terceiro presente é conseguir, graças à contínua parceria com o Sesc e, agora, com a Secretaria Estadual de Cultura e a Funarj, levar o Panorama a mais e mais espaços do Rio de Janeiro. Além da já esperada noite a preços populares no Theatro Municipal, o Panorama se espalha pelo Centro, Zona Sul, Zona Norte, Zona Oeste e Baixada Fluminense, com uma agenda variada e que não facilita o que não deve. Que entende que o consumidor de cultura de qualidade não tem cep nem faixa salarial e que o dever de um projeto financiado com verbas públicas, ainda que via leis de incentivo, é praticar o acesso democrático. Não como contrapartida social, mas como essência mesma da sua realização.
Um festival assim, nascido da iniciativa de uma artista e feito para uma platéia ampla, enfrenta muitos desafios. Mas a prova diária da necessidade de um projeto como o Panorama vem do público, que continua crescendo, e dos artistas, que seguem confiando na possibilidade real de se gerar projetos com continuidade.
Parte do que para nós significa essa continuidade fica visível no Circuito Brasileiro dos Festivais Internacionais de Dança, iniciado pelo Panorama em 2005 e que hoje se articula com o FID, em Belo Horizonte, o Festival de Dança do Recife e a Bienal do Ceará. Em 2007, a Petrobras passou a ser apresentadora do circuito e seu apoio vem se juntar ao da Funarte, que já o reconhece, desde 2006, como ação estratégica para a cultura nacional e o desenvolvimento da dança de investigação.
No front carioca, a Oi e o Oi Futuro reforçam sua participação em tudo o que renova a arte da cidade. E o Sesc Rio, através do Espaço Sesc, se confirma como a verdadeira casa da dança contemporânea carioca, seja por sua programação continuada, seja pelo investimento em produção.
O Panorama, como festival, se insere noutro “panorama”, maior – nem por isso mais arejado. Numa cidade onde a cultura viveu um ano como enfeite do esporte, a esfera municipal está novamente ausente da dança da cidade e do Panorama. Mas nós também só pensamos em atletismo: nossa corrida é sempre de obstáculos, a prova é de resistência e a linha de chegada a gente reinventa todo ano.
In Brazil, an artistic project that lasts 16 years is something of an achievement. Brazilian public life, made up of mandates, not projects, remakes the rules each four years, changes the values, redefines priorities. So do we, at each step, we rethink if the festival’s outline and ramifications make sense. We still have many doubts and each year we think of ways to make the festival – and dance – integrant parts of the society where we live. We evaluate how to be coherent with the political positions that always kept the Panorama as an uncomfortable space, of questionings and constant mistrust of the established forms of relating with art, the city and society.
To become 16 years old in Brazil is in truth an achievement for any one. The young, between 15 and 20 years, are the majority of the victims of the 50 thousand murders registered per year and frequently are its authors. With one of the biggest of homicide rates of the world, our country presents regions with more than 100 homicides per one hundred thousand of 15 to 24 year olds, as is the case in the states of Rio de Janeiro, Pernambuco and Espirito Santo. This is, in a wider view, the society where we are considering a festival with artists from Brazil and the world that dedicate themselves to thinking about the body arts. Never thematic, never unisonous. Every year Panorama risks making a web of scenic works where the conducting wire is the body thought of in its political, aesthetic and social implications.
Since we took over the curatorship and direction of the festival, we decided that panorama could not be a show window of artists, a market. We wanted to keep Lia’s idea alive, that Panorama was, above all, a meeting space. To get to know and give space for other know oneself. In this sense, we have three great gifts in this 16 year-old party.
The first one has to do with bringing our neighbors closer to the festival. Since we took over the direction of the festival, we drew up a long-term strategy for this integration within our continent and this year we will be visited by 30 professionals of diverse countries to participate in the Meeting of the South American Network of Dance and to attend the shows of our artists. We hope this meeting to be an important step for a bigger interaction between our artists and others of Latin America.
The second is to realize that, if we add the projects that Panorama invested in recent years, we get to the mark of 18 works made by artists in collaboration projects. In this years programme, the public will see three of them. Egressed from the Encontros 2005/2006 – made in partnership with our more active and recurrent partner, the Alkantara project- Karima meets Miguel meets Cairo meets Lisbon and Dueto are two very different results that talk of the possibilities and risks of collaboration with the other. Movimento #2, by the carioca Andrea Maciel, is one of the nine generated by coLABoratorio, a new collaboration project with 20 artists from Europe and South America, carried out by Panorama in 2006 and 2007. The others generated by these and other interchanges travel non-stop around the world, proving that to confide and get to know the other it is the key to artistic growth.
The third gift is, thanks to continued partnerships with SESC and the new contribution with the State Secretariat of Culture and Funarj, to take Panorama to more and more spaces in Rio de Janeiro. Apart from the long-awaited night at popular prices in the Municipal Theatre, this year Panorama spreads out to the Center, South, North and West Zones and Baixada Fluminense, with a varied programme that doesn’t facilitate what does not need to be. One that understands that the consumers for quality culture do not have a zip code, nor a fixed wage and that the duty of a project financed with public money, despite coming through incentive laws, is to practice the democratic access, not as social counterpart, but as its inner essence.
A festival like this, born of an artist such as Lia Rodrigues and made for as wide a public as possible, faces many challenges. But the daily proof of the necessity of a project like Panorama comes from the public itself, that continues to grow, and from the artists, who continue trusting our capacity to manage continuity projects.
Part of what this continuity means for us is visible in the Brazilian Circuit of the International Dance Festivals, started by Panorama in 2005 and that today articulates with FID, in Belo Horizonte, the Dance Festival of Recife and the Ceará Biennial. In 2007, Petrobras started to present the Circuit and its support joins Funarte, that already recognizes it as a strategic action for national culture and the development of dance investigation since 2006.
In the Carioca front, Oi and Oi Futuro strengthen their participation in all that opens space for the new, for what renews art in the city. And the SESC Rio, through Espaço SESC, is confirmed as the true home of Carioca contemporary dance, either in continued programmes, or in the investment in production.
The Panorama, as a festival, is inserted in another “panorama”, wider, nonetheless not as aired. In a city where culture lived a year as ornament of sport, the municipal sphere is again absent from the city’s dance and the Panorama. But we also only think about athletics: for us it is always an obstacle race, it is a resistance test and we reinvent the arrival line all year round.
Eduardo Bonito e Nayse López







